Ana Maria Caliman Filadelfi nasceu em São Paulo, no Hospital da Beneficência Portuguesa, em 30 de julho de 1970. Passou a infância e a adolescência no ABC Paulista, morando principalmente em São Bernardo do Campo. Como filha única, teve o privilégio de estudar em escola particular, embora com sacrifício de seus pais Ernesto Filadelfi e Albertina Meanedici Caliman Filadelfi, exemplos de dedicação. Sua mãe, Albertina, é uma referência de superação, tendo se formado em Pedagogia aos 75 anos, conquistando o estudo que lhe foi negado em sua juventude e, seu pai, de honestidade e retidão, com 54 anos de trabalho documentado.
Ainda no Ensino Médio, seu interesse pela Biologia foi despertado por um casal de professores jovens e entusiastas, formados pela Universidade de São Paulo (USP). Apesar de ter considerado a Arqueologia — esta última durante a época de ouro de Indiana Jones — a inspiração animou Ana a optar por Ciências Biológicas e ingressar também na USP em 1988.
Na universidade, completou o bacharelado e a licenciatura (plena e curta, na época) em Ciências Biológicas. Seu foco, no entanto, sempre foi a sala de aula. Relembra que, já no segundo dia de faculdade, era uma das poucas que manifestava o desejo de ser professora, enquanto a maioria dos colegas almejava a carreira científica, no auge dos feitos de Jacques Cousteau.
Experimentou estágios com abelhas e na área de manguezais, o que acabou originando sua ênfase formativa em fisiologia da pigmentação animal, estudando o controle endócrino da mudança de cor em vertebrados. Conheceu sua futura orientadora, Ana Maria de Lauro Castrucci, através de uma disciplina de fisiologia humana, e deu seguimento à Iniciação Científica, ao Mestrado e, alguns anos depois, ao Doutorado sob a mesma orientação. Após concluir o mestrado, começou a lecionar em cursinhos pré-vestibulares e ensino fundamental e médio, no entanto, a experiência revelou-se parcialmente frustrante diante das dificuldades enfrentadas em sala de aula.
Em 1995, motivada a buscar novas oportunidades, prestou, em nível assistente, ainda como Mestre, concurso público em Fisiologia Humana e, após aprovação, chegou à Universidade Federal do Paraná. Sua chegada a Curitiba em janeiro de 1996 não foi nada fácil, e as muitas mudanças e adaptações exigiram a coragem de uma vida nova, que ainda a fazia querer voltar para São Paulo nos finais de semana.
Na UFPR, até outubro de 1998, iniciou as aulas para o curso de Farmácia e, logo após, para o de Educação Física, dentre outros, atuando, também, em pesquisa em sua área de formação. No final deste ano, retornou a São Paulo para realizar o Doutorado na USP, na área de Fisiologia Geral, o que consequentemente a aproximou novamente de sua família.
Entre percalços ocorridos durante o mestrado e doutorado e nas pesquisas realizadas na UFPR, o processo reforçou sua vocação para a docência, que sempre esteve em primeiro lugar em sua atuação profissional, até o feliz complemento trazido por outra linha de trabalho: a extensão.
Na Extensão, Ana encontrou um novo propósito, reinventando a prática docente com a interação junto à sociedade. Iniciou ações voltadas à fisiologia humana e saúde, linha que se consolidou no projeto “Fisiologia na educação de jovens para a cidadania” (com várias versões entre 2011 e 2020), inicialmente com jovens aprendizes, e depois com crianças e pré-adolescentes em vulnerabilidade social que frequentavam instituições filantrópicas.
Durante a pandemia, em outubro de 2020, juntamente com colegas do Departamento de Fisiologia, co-fundou o projeto “Fisiodivulgando” (que apresentamos no início deste Bionews). A iniciativa nasceu, especialmente, da necessidade de apoiar professores do Ensino Fundamental e Médio em meio aos desafios das aulas remotas. O projeto mapeou demandas de educadores e atores sociais diversos e, as respostas, vieram de 15 estados diferentes do Brasil, com informações sobre quais iniciativas didáticas e temas de saúde o projeto deveria abarcar. Assim, surge a primeira versão do projeto, através da realização de webinars e produção de sequências, vídeos, jogos virtuais didáticos.
Atualmente, o projeto grava “Fisiocasts” e continua produzindo materiais didáticos, mas atua também em oficinas sobre educação em sexualidade para estudantes e professores, as quais envolvem parcerias com o Museu de Anatomia do Setor, e em 2024, com a Secretaria de Educação. A Professora Ana defende que a Extensão, por impactar diretamente a vida das pessoas com informação e formação, têm importância equivalente à docência e à pesquisa científica, embora ainda não receba o mesmo reconhecimento.
Na vida pessoal, a dança de salão se tornou um pilar importante para Ana. Apaixonou-se e começou a praticá-la ainda nas atléticas da USP, durante o mestrado, quando o estilo estava ressurgindo entre a juventude da época. Em Curitiba, dentre aulas realizadas e participação em coreografias, ela se tornou um ponto de enraizamento e pertencimento à cidade, fazendo-a deixar de querer viajar para São Paulo nos fins de semana, e coadunando com o curso de sua principal carga horária docente na UFPR, a Educação Física.
Com formação técnica em piano, a Professora Ana Maria aprofundou a interface entre música e dança, chegando a realizar, em 2005, uma especialização em dança de salão oferecida pela Faculdade Metropolitana de Curitiba (FAMEC, S. J. dos Pinhais) — a primeira pós-graduação na área no Brasil. Sua história com a dança se estende até hoje, mas foi mais intensa até o início da pandemia. Ela considera que a área artística lhe trouxe mais poesia, humanidade, e um olhar mais flexível para a vida.
Em dezembro de 2021, sua vida foi marcada por um período de um grande desafio pessoal, quando precisou enfrentar repentinamente o diagnóstico de leucemia mielóide aguda. O processo de cura, que se estendeu por um ano, trouxe aprendizados profundos e revelou uma força interior essencial. Nesse percurso, Ana contou com o apoio incondicional de seu companheiro, Igor Augusto Zonta — amor que nasceu na dança anos antes e que, justamente nesse momento difícil, transformou-se em vida conjugal e em um pilar decisivo de sua superação. Sua gratidão, no entanto, se estende também a Deus, pais, familiares, amigos e até pessoas desconhecidas que, em oração, também se uniram pela sua recuperação.
A trajetória da Professora Ana Maria Caliman Filadelfi é marcada pela dedicação à docência, pela reinvenção constante através da extensão universitária e pela sensibilidade artística que encontrou na música e na dança. Sua trajetória profissional e pessoal se entrelaça em um fluxo contínuo de ensinar, aprender e transformar, guiada pelo compromisso de promover ciência e saúde e pelo esforço constante de aprimorar as formas de levar esse conhecimento às salas de aula e para além delas. A seu ver: “a poesia do movimento não deixa de estar ali também, nas funções dinâmicas, fantásticas e harmoniosas do corpo humano!”