Com cerca de 28 espécies, os anfíbios do gênero Cycloramphus possuem muitas lacunas sobre sua história natural. Parte delas, deve-se dificuldade de encontrar estes espécimes na natureza por apresentarem uma grande suscetibilidade ao declínio populacional, em maior parte devido a ação do homem nos locais em que estas espécies habitam: Mata atlântica e Floresta das Araucárias dos estados de Santa Catarina e Paraná. Estes fatores motivaram a inclusão de várias dessas espécies no Plano de Ações Nacionais de Conservação das Espécies Ameaçadas de Extinção há alguns anos.
No esforço de acrescentar informações a respeito deste gênero de anfíbios, o trabalho intitulado “Cytogenetic characterization and mapping of the repetitive DNAs in Cycloramphus bolitoglossus (Werner, 1897): more clues for the chromosome evolution in the genus Cycloramphus (Anura, Cycloramphidae)”, publicado na revista Plos One, apresenta dados inéditos sobre a espécie Cycloramphus bolitoglossus, um anfíbio endêmico da Mata Atlântica no estado do Paraná. O artigo descreve pela primeira vez o cariótipo dessa espécie, apresentando o número e morfologia dos cromossomos, padrão de distribuição da heterocromatina constitutiva e posição das Regiões organizadoras de nucléolo (NORs). Essas são características fundamentais para o conhecimento sobre o complemento cromossômico das espécies e ponto de partida para as comparações entre os cariótipos das espécies-irmãs. Assim, quando comparamos os cariótipos de espécies relacionadas, é possível sugerir hipóteses evolutivas com base em rearranjos cromossômicos que fornecem pistas sobre as divergências entre as espécies do gênero Cycloramphus.
O trabalho foi desenvolvido pela bolsista de PIBIC (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica) Gislayne de Paula Bueno, acadêmica do curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Paraná. O projeto envolveu o laboratório de Citogenética Evolutiva e Conservação Animal do Departamento de Genética da UFPR e da equipe do Laboratório de Dinâmicas Ecológicas, do Departamento de Zoologia da UFPR. Também integrou a equipe o Dr. Kaleb Pretto Gatto, pós-doutorando da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita” (Unesp/Rio Claro).
Como grande achado, a equipe descreveu pela primeira vez na família Cycloramphidae a presença de um DNA satélite: o PcP190. DNAs satélites constituem uma classe de DNAs não-codificantes (que não transcrevem para nenhum produto celular aparentemente) e que estão presentes repetidos centenas de cópias em uma mesma região do genoma (repetidos “in tandem”). Esses DNAs repetitivos constituem grande fração dos genomas de eucariotos e são importantes componentes estruturais dos cromossomos e muitas evidências sugerem sua importância como substrato durante a evolução cromossômica das espécies. Neste trabalho, os autores encontraram grande similaridade estrutural com cópias do DNA ribossomal 5S (rDNA 5S), confirmando o mesmo padrão já relatado em outros Anuros. O trabalho também localizou em quais cromossomos do cariótipo esse DNA satélite estava presente, utilizando para isso a técnica de hibridação “in situ” fluorescente (FISH). Acredita-se que o DNA satélite PcP190 tenha se originado de um processo de duplicação do gene de rDNA 5S e tenha acumulado mutações ao longo do tempo que resultaram no surgimento dessa nova família de DNA satélite, aparentemente restrita à algumas poucas linhagens de Anuros.
Esses novos dados adicionam um nova página a história do gênero Cycloramphus e no estudo desse DNA satélite em Anuros e abre novas perspectivas para a compreensão o papel desses DNAs nos genomas desse grupo.
https://doi.org/10.1371/journal.pone.0245128